domingo, 25 de março de 2018

O amor acontece...


O amor acontece…

O amor acontece, a cada espaço e hora.
De madrugada serena e ao raiar da aurora.
Dia e noite, tudo serve.
O sonho borbota e ferve.
São doiradas suas linhas.
De cetim os seus poemas.
De brocado o seu toucado.
Num casebre ou num palácio.

Vem de nós. Não se aprende.
Por mais forte seja o vento,
Nunca lhe apaga a combustão.

Nada resiste a seu calor.
Compra o oiro.
Tem o charme dum jardim.
O perfume das açucenas.
O cintilar rubro das papoilas.
Ó ópio dos sonhadores.
Põe por terra os cavaleiros.
Contra ele não há heróis…

Berlim, 25 de Março de 2018
13h22m
Jlmg


Guerra dos cactos




Guerra dos cactos

Desencadeou-se no deserto a guerra dos cactos.
De repente e pela calada, avançaram em manada louca,
Uma chusma de catos, secos e esqueléticos, vorazes de fama e lucro.
Sua bandeira é o tudo vale.
Mesmo que seja a alma.
É o tudo serve.
Para derrubarem os cactos belos.
Carregados de fruto e de flores.

Como sentiram medo de seus picos,
Vibraram-lhes cortes nas raízes.
Donde a seiva os percorria.

Quase à morte, eis que uma vaga de hostes de guerreiros,
Armados até aos dentes,
Vieram em seu socorro.

Ao cabo de poucas horas,
Um mar de destroços,
Dos catos esfarrapados,
Cobria o chão.

Depressa, reverdejaram todos os cactos
E de paz se cobriu a terra…

Berlim, 25 de Março de 2018
8h56m
Dia em que mudou a hora e foi decretada a extinção, para sempre, do (des) acordo ortográfico

Jlmg

sábado, 24 de março de 2018

Praia do sonho e do silêncio




Praia do sonho e do silêncio

Espraio minha alma na praia do sonho e do silêncio.
Onde as horas, parece, pararam recolhidas.
Me atrevo às ondas mais aguerridas
E mergulho nelas em total liberdade.
Escondo em mim as suaves turbulências.
Gestos de alma apenas recolhidos.
Traço rotas na amplidão das águas.
Se esgotam as minhas forças.
Peço às gaivotas que me salvem.
Porque não fiquei eu estendido sobre a areia
Na sonolência falaz das letargias.
Quem dera a paz que sobra, depois das vitórias bem conquistadas.
Ouvindo “Nocturnos” de Chopin
Berlim, 24 de Março de 2018
21h29m
Jlmg

Praça do Giraldo


A praça do Giraldo


Me parecia bela
aquela praça ampla,
vetusta em Évora,
pelas tardes quentes de Agosto livre.

Naquela esplanada à sombra,
Nos anos verdes da minha juventude.
Muito finas, de porte fino,
Cirandavam moças, sob as arcadas velhas.
Buscando adornos,
Aquelas penas de anjo
Que nos faziam sonhar,
Tão puras.

Era linda a vida a desabrochar em força.
Que lindo céu, na terra doce.
Quimera azul dum futuro negro.
Só a esperança em réstea,
Nos acalorava a alma.
Qual caravela livre,
Que só a brisa beija.

Ficaram só saudades ao findar da vida
Que só a morte apaga…

Berlim, 24 de Março de 2018
12h31m

Ouvindo Kaufman

Jlmg


As ladeiras

As ladeiras…

Gostava das ladeiras de barro.
Das mais longas.
Expostas ao sol.
As havia na minha aldeia.

Escorregava nelas.
Com vertigem.
Corpo estreme,
Cara ao vento,
Rente ao chão.
Até que a pele
Sangrasse ao sol.
Sensação bem cara,
Quando chegava a casa
E prestava contas,
Mais uns calções…
Bastava a noite.
Tudo esquecia.
No outro dia,
De novo a farra,
Depois da escola.
Mas agora,
Lição sabida,
Sobre uma tábua.
Na barroca funda
Que lá havia.

Berlim, 24 de Março de 2018
8h47m
Jlmg

sexta-feira, 23 de março de 2018

O sabor do amargo





O sabor do amargo

Há horas na vida em que o amargo se faz doce.
Amargas saudades da casa distante
Adoçam com o regresso da chave na porta.
Só quem parte, por ter que partir,
Sabe a doçura de como é bom regressar.
Com altos e baixos se alcança o sucesso.
Com ganhos e perdas se avança na marcha.
Só vence quem sabe perder.
O amargo se esquece. O doce, nunca mais…

Berlim, 23 de Março de2018
21h54m
Jlmg