quarta-feira, 21 de março de 2018

Cozinhar felicidade


Cozinhar a felicidade

1 .-  Acender o coração com o fogo do amor.

2.- Quando estiver bem quente, pôr ao lume uma panela bem cheia de alegria.

3.- Quando ferver, mergulham-se punhados de beijos e abraços que se colheram na horta dos amigos de casa e da vizinhança.

4 .-  Esperar que borbotem risos e gargalhadas em baforadas que contagiem toda a gente à volta e a ponham em grande festa.

5 .- Levar para a mesa em grandes travessas de amizade.

6.- Fazer um brinde caloroso tão sentido. Que abrace o mundo inteiro, na justiça e no perdão.

7 .- Se sacie nessa noite toda a fome. E que as sobras durem todo o ano.

Ouvindo Hauser a tocar o Adágio de Albinoni

Berlim, 21 de Março de 2018
8h30m
Jlmg

terça-feira, 20 de março de 2018

De surpresa


Apanhado de surpresa

De repente, me vejo ao pé dos oitenta.
Faltam três e meio.
Nunca imaginei.

Meta longínqua e inacessível para a maioria.

Para mim, até há pouco, oitenta anos
Era ser velho. Quase bíblico.
Barbas brancas e duas bengalas.

As barbas, tenho. Bengalas não.
E, não é que me sinto maduro.
Velho, não!


Inexorável o tempo marcha.
Tão calado, ninguém dá fé.

Vivi muito. De bom e não.
O pior é que só agora aprendi a viver…

Berlim, 20 de Março de 2018
23h6m
Jlmg







De lilás...

Vestiram-se de lilás...

Vestiram-se de lilás os jacarandás das ruas belas de Lisboa.
Já se ouvem os trinados da pardalada
no recreio do arvoredo.
E o chão, suavemente, se atapeta com as pétalas que vão voando.

É de festa a hora em que rompe a Primavera.
Quem me dera agora subir a Avenida da Liberdade,
subir à Estrela e ver de cima o colorido da cidade.
Sempre bela nossa Lisboa de outras eras, com seus bairros formigueiros.
Com seu Tejo calmeirão que chegou cansado da viagem, desde a Espanha
onde deixou o melhor de si.
E os barcos cacilheiros num vaivém que nunca pára,
Abraçando as duas margens.
Chovam bênçãos, incessantemente, sobre Lisboa,
com sementes de muita paz.

Bar do Edeka em Berlim, 20 de Março de 2018
10h17m
Jlmg

segunda-feira, 19 de março de 2018

À sombra duma latada


À sombra duma latada

Uma broa e uma canada
Vive do negócio do vinho.
Uma fatia com côdea e uma caneca.
Um pedaço de toucinho.

No fim, ficam bigodes tintos na boca seca.
Se vão juntando os bons vizinhos.
Chovem gargalhadas a toda a volta.

Mais uma fêvera ou um rojão tostado.
Fazem melhor que o remédio.
Se pede à pipa mais uma canada.
E umas farpas de bacalhau à posta.
Quem não gosta?
Até o abade, nas horas mortas, lá aparece, de vez em quando, para dar da sua bênção.

Reina a paz e a alegria.
Vai da sesta ao fim da tarde.
Em cada dia.
Tornou-se um hábito e uma certeza:
Quem lá cai uma vez, pela certa, volta…
À loja fresca do “dezassete”, bem à sombra duma latada.

Berlim, 19 de Março de 2018
16h30m
Jlmg





Chegou a hora


Chegou a hora

Nasci. Cresci. Me educaram e me preparam para a vida.
Chegou a hora de ser eu a me lançar ao caminho e puxar com força.

Dar de mim o que recebi por bem.
Só assim se chegará ao destino.

Não há lugar para parasitas.
Esses erradicam-se.
Para não se multiplicarem.
Se não tornarem pragas.

E há tantos!...

Não foi esse o exemplo de nossos antanhos.
Fomos criadores. Destemidos. Geniais.
Dominamos o mar a remos.
Com velas de pano cru.

Desvendamos o mundo
Como mais ninguém.
Do Oriente ao Ocidente.
Deixamos rastos luminosos.
De força e fé…

Ouvindo o Adágio de Albinoni por Hauser no violoncelo

Berlim, 19 de Março de 2018
8h50m
Jlmg