segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Meu rio abrupto...



Meu rio abrupto…

Abrandei meu rio abrupto.
Corria célere, desenfreado, ao tom do vento.
O acalmo. Sossego e domo.
E me dou conta de que a poesia é arte.

Beleza e paz, sua matéria-prima.
Seu lastro é luz.
Seu estro é cor.
Oiço a voz do inconfundível.
Me prendo firme às suas margens.

Exponho ao sol as suas lendas.
Reluzem belas como flores de lis.

Agora é um Danúbio lento.
Sua cor é verde.
Tem a paz dos campos.

Meu destino é a foz.
Só no mar afogo.

Berlim, 26 de Fevereiro de 2018
17h39m
Jlmg




Minha poesia…

Cozinho meus poemas num fogão a lenha.
Fervo-a verde num caldo de verdura.estreme.
Arrefeço-a gelada ao sol duma vidraça.
Saboreio-lhe o odor da salsa que ferveu de maresia.

Cada colherada doce é um poema vivo que nunca morre.
Minha panela é odre onde a poesia ferve.
Meu fogão a lenha nem o gelo apaga…
Ouvindo Massenet
Berlim, 26 de Fevereiro de 2018
12h42m
Jlmg

Me quedo apático...



Me quedo apático…

Me quedo apático perante este quadro inerte.
Por debaixo das vestes verdes,
Que há muito lá havia,
Arde ao sol e
Apenas resta viva uma pedreira morta.

Arestas agudas e frestas negras preenchem calcárias, sem gota d’água.

Nem sequer as águias celestes arriscam aí poisar as patas.

Há muito fugiu dali o belo e não mais volta.

Me quedo apático como um insecto morto…

Berlim, 26 de Fevereiro de 2018
10h45m
Jlmg

Um ramo lindo ...

Queria fazer um ramo lindo…

Faltam-me as flores para fazer um ramo lindo.
Para ofertar aos deuses.
Secaram sem água ao sol.
Restam murchas suas pétalas sem cor.
Ressaltam-lhe só as nervuras.

O caule é lenha.
Mirram-lhe no túmulo as raízes negras.
Apenas as dos cardos restaram com cor.
Seus espinhos agudos afugentam meus dedos.
Disparam-me o sangue.
Nem sequer as abelhas e as borboletas
Lhes adoçam a forma.
Murchou meu fogo interno.
Me quedo infértil à sombra cega.
Só meu sonho me ampara agora,
Enquanto não vem de novo a primavera.
Berlim, 26 de Fevereiro de 2018
10h3m
Jlmg

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Filho da Natureza



Filho da Natureza…

Trata bem a tua mãe, ó filho da natureza.
Cuida dela como rainha ou como princesa.
Ela é bela. Delicada. Generosa.
Mora bem nela.
Não a maltrates nem a estragues.
Ela te paga a cem por um.

Dá-te sol. Dá-te vinho e te dá pão.
Dá-te o mar. Um céu azul.
E, à noite, tão estrelado.
Parece um reino
Onde a lua é a rainha
E o luar é uma bênção.
Brilham nela tantos sonhos
Como de estrelas tem o céu.

Dela nasces. A ela voltas.
Dela partes.
Ela fica.
Sua vida não tem fim.
Mas precisa que a trates bem.

Berlim, 23 de Fevereiro de 2018
Jlmg

Feira das ideias...



Feira das ideias…

Encho meu açafate de ideias belas e boas e sigo para a vila a vendê-las ou trocá-las por melhores.

Não tolero a pasmaceira de parar nelas.
Agitar, fazer vento, tentar passá-las,
Trazer as novas. As que prometem a novidade.
As que incendeiam e iluminam.
Preciso delas. Me alimentam. As trabalho e elaboro.
As moldo a mim.
E faço minhas.
As desfio em linhas.
Depois teço.
Poesia e prosa.
Dou-lhes sabor.
Dou-lhes cor.
A seguir as dou.

Berlim, 22 de Fevereiro de 2018
19h12m
Jlmg