segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Um ramo lindo ...

Queria fazer um ramo lindo…

Faltam-me as flores para fazer um ramo lindo.
Para ofertar aos deuses.
Secaram sem água ao sol.
Restam murchas suas pétalas sem cor.
Ressaltam-lhe só as nervuras.

O caule é lenha.
Mirram-lhe no túmulo as raízes negras.
Apenas as dos cardos restaram com cor.
Seus espinhos agudos afugentam meus dedos.
Disparam-me o sangue.
Nem sequer as abelhas e as borboletas
Lhes adoçam a forma.
Murchou meu fogo interno.
Me quedo infértil à sombra cega.
Só meu sonho me ampara agora,
Enquanto não vem de novo a primavera.
Berlim, 26 de Fevereiro de 2018
10h3m
Jlmg

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Filho da Natureza



Filho da Natureza…

Trata bem a tua mãe, ó filho da natureza.
Cuida dela como rainha ou como princesa.
Ela é bela. Delicada. Generosa.
Mora bem nela.
Não a maltrates nem a estragues.
Ela te paga a cem por um.

Dá-te sol. Dá-te vinho e te dá pão.
Dá-te o mar. Um céu azul.
E, à noite, tão estrelado.
Parece um reino
Onde a lua é a rainha
E o luar é uma bênção.
Brilham nela tantos sonhos
Como de estrelas tem o céu.

Dela nasces. A ela voltas.
Dela partes.
Ela fica.
Sua vida não tem fim.
Mas precisa que a trates bem.

Berlim, 23 de Fevereiro de 2018
Jlmg

Feira das ideias...



Feira das ideias…

Encho meu açafate de ideias belas e boas e sigo para a vila a vendê-las ou trocá-las por melhores.

Não tolero a pasmaceira de parar nelas.
Agitar, fazer vento, tentar passá-las,
Trazer as novas. As que prometem a novidade.
As que incendeiam e iluminam.
Preciso delas. Me alimentam. As trabalho e elaboro.
As moldo a mim.
E faço minhas.
As desfio em linhas.
Depois teço.
Poesia e prosa.
Dou-lhes sabor.
Dou-lhes cor.
A seguir as dou.

Berlim, 22 de Fevereiro de 2018
19h12m
Jlmg


terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Nossas unhas...

 
 
 
As nossas unhas...

Gostava que tocassem guitarra as minhas unhas.
Seriam meu tesouro.
Mas não. Apenas me coçam a pele onde o ardor se inflame.
Esgravatam o suor da testa.
E a comichão dos sobrolhos.

Alongam a ponta dos dedos e arranham os inimigos que se me atravanquem.

Têm ligeiras estrias oblongas.
São descuidadas se não cuido delas.
Crescem. Parece não terem mais fim.

Sem elas, nossas mãos seriam barbatanas.
Refinam o bater de nossas palmas.
Ficam bem belas quando em oração.

Alguns dentes as roem como se fossem ratos.
Ao frio, fazem das luvas as suas tocas.
Muito vaidosas e sedutoras as femininas.

E as dos pés, nem é bom falar...

Berlim, 21 de Fevereiro de 2018
8h7m
Jlmg


segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Dia de sol

Dia de sol…

Nasce abundante este dia de sol.
Inunda de luz e de cor o céu de Berlim.
Amena o frio no rigor de inverno.
Convida a sair, caminhar pelos bosques.
Rosnam os corvos de contentamento divino.
Os melros negros debicam no chão.
Fumegam as bocas exalando calor.
Reluzem os olhos da arraia escolar.
Deslizam velozes os carros nas ruas.
As telhas vermelhas parecem arder.
Correm pelo chão as sombras dos corpos.
Se acumulam as gentes esperando o autocarro.
Só os dedos lhes mexem digitando as letras que levam mensagens.
Boa surpresa neste final de Fevereiro…
Berlim, 20 de Fevereiro de 2018
8h1m
Jlmg

Irei ser breve



Irei ser breve…

Desta vez, irei ser breve.
Sinto à flor da pele a vibração amena que me banha a alma.
Chegam de longe, as minhas doces lembranças de menino.
Erguendo cabaninhas de musgo ao São João, na beira da estrada.
Com pequenas lascas de penedias.
Até um laguinho nela cabia.
Era o mundo em que acreditava.

Ainda hoje o visito para mitigar o que é de agora…

Berlim, 20 de Fevereiro de 2018
7h35m
Jlmg

Subindo o Douro

Subindo o Douro…

Vou subir o Douro, desde o Porto até à Régua.
Ali a pequena praia de Avintes
E seus barquinhos leves de atravessar.
Atravesso os montes rondos a escorrerem, duma e outra margem,
Um ermo cinza,
Sem qualquer história.
Atinjo Paiva e seu castelo.
Onde duas pontes nos abraçam ternurentas.
Vem a seguir Baião, salpicado de fidalgos palacetes e de igrejas.
As termas de Mosteirô onde o comboio, de tão cansado,
Se queda por uns instantes a descansar.
Avanço acima, quando as vinhas verdes, em suaves correrias,
Se inflamam em doce mosto,
No tórrido mês de Agosto.
Ali vem afoito um barco rabelo engalanado a descer,
Vai sem vela,
A corrente o leva, bem ao meio,
desde a Régua até ao Porto.
Seu bojo é um grande odre daquele vinho d’oiro, precioso,
que o sol e a terra, em segredo, tão amoroso, em boa hora conceberam.
Oxalá chegue bem ao seu destino…
Ouvindo Smetana , orquestra filarmónica Cheka
Berlim, 19 de Fevereiro de 2018
16h24m
Jlmg