domingo, 28 de janeiro de 2018

É brando e suave



É brando e suave…

Como é brando e suave aquele pedaço inerte que me abre a porta.
Tem a forma certa e a medida justa.

Foi feito assim.
Procura um dono
No futuro incerto.
Nem ela sabe onde irá entrar.

Tem um dom condão
Na mão do dono.

Só ele no seu jeito certo,
Agarra e puxa o que trava a porta
E lhe abre o mundo.

Por isso, ele a guarda com cuidado infindo.
Parece que o mundo acaba se ele lhe perde o rasto.
Se desfaz em rezas.
Até que o susto acabe e a festa venha…

Berlim, 28 de Janeiro de 2018
Jlmg

Sabor da melancolia



Sabor da melancolia

Quando as cores desmaiam porque o sol se despediu,
Um vaga de melancolia tolda as encostas e os vales.
Os rebanhos ficam parados e só pensam no seu curral.
Os pastores e seus cães fiéis os tangem serenamente.
Eles descem num bando unido,
Remoendo o que lhes tocou.

É a hora das trindades.
E das almas em peregrinação.
Pelos lares da aldeia, as panelas fervem,
Cheias de couves e batatas boas.

Sob as ramadas, se lavam as mãos nos lavatórios.
A água é limpa e fresca.
A toalha branca, corada ao sol, cobre a mesa longa, com as tigelas de barro.

O pai já foi à pipa buscar uma canada de tinto puro.
A pequena que só quer brincar faz ouvidos moucos à  mãe já farta de os chamar.
Só o berro do pai os faz pensar…

Berlim, 28 de Janeiro de 2018
19h6m
Jlmg

sábado, 27 de janeiro de 2018

Casebres na lua cheia

Casebres na lua cheia

Nas encostas ensolaradas por trás das sombras, pululam casebres doirados,
não se sabe de que são feitos.
Alfobres efervecentes, deles saem constantes volutas em chama.
Se transfiguram em núvens raiadas e alvinitentes.
Que voam leves pelo céu sem fim.

Quando poisam sobre a terra
derramam sonhos sobre as almas mais sensíveis.
Assumem formas, melodias,
se evolam em poemas, quadros lindos,
maviosas sinfonias
que extasiam quem as ouve.

Têm a marca do divino sobre o humano.

Ninguém adivinha donde vêm.
Ninguém sabe que na lua, quando cheia,
há casebres onde nascem os nossos sonhos...

Hotel Horda em Slubice, Polónia,
27 de Janeiro de 2018
23h35m
Jlmg




sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Aos ziguezagues



Em zigue-zague…

Minha vida foi um ziguezague.
Montanha russa.
Muitas vezes, tormenta.
Muitas, bonança.
Alegre e triste.
Clara e escura.

Horas ricas e muitas pobres.

Foi sempre em marcha.
Sem perder tempo.
Algumas vitórias.
Muitas derrotas.
Apesar de tudo, o saldo é bom.

De muita coisa me arrependo.
Outras, muitas, faria igual.

Não foi banal.
Tirei meu curso, a conta-gotas.
Trabalhando ao lado.
Ajudei os dos filhos.
E dois doutoramentos.
Desisti do CEJ, não era a minha praia.
Voltei às leis a servir os outros.

Troquei de carro, como foi possível.
Pratiquei campismo e recomendo.

Agora descanso.
Sou emigrante à força.
Nunca esperei.
Perto dos netos.
Ajudando o barco.
O mar está bravo.
O Senhor vai dentro…

Berlim, 27 de Janeiro de 2018
8h13 m
Jlmg

Que diria Camões?...

Que diria Luís de Camões se voltasse de novo ao seu país que tão bem cantou, ao ver:



uma Justiça que só castiga os fracos e pobres e isenta os ricos e poderosos;

uma Assembleia de deputados onde a maior parte se senta lá para traficar influências e gordos negócios;

a maior parte dos Governos delapidou o erário público em favor próprio e da banca podre;

as presidências da república que foram, no mínimo, abúlicas ou notoriamente, coniventes;

umas forças armadas que permitem assaltos aos paióis da segurança pública, sem identificarem os responsáveis;

a maior parte da população capaz teve de emigrar para todo o mundo, para sobreviver à fome;

as universidades formam doutores para dar de mão beijada aos outros países:

os hospitais não conseguem atender os doentes com falta de meios;

um país encharcado de parcerias público privadas, PPPs, a extorquirem lucros fabulosos para o bolso de ex-governantes que as engendraram;

uma rede de autoestradas que não servem para nada, porque se cobra excessivamente caras portagens;
um país enfeudado a uma falsa União Europeia que só olha para os países ricos, regida por uma casta de agentes que auferem ordenados e privilègios escandalosos.

Que diria Camões?...