sábado, 6 de janeiro de 2018

Rastejante e subtil



Rastejante e subtil

Como a água,
Rastejante e subtil,
Tudo inunda,
Como o sol.

Ora perto ora distante.
Se impregna.
Corpo e alma.
Bem distintos.
Semi-partes.
Dois destinos.
Dum o chão, a terra e húmus.
Doutro o céu. O além para sempre.

É vida. Energia ardente.
Sarça breve.
Arde e cinza.

Verde, alegre.
Assim desponta.
Flor silvestre.
Fonte pura.

Cardo e espinhos.
Sabor a mel.
Clara e escura.
Alada e presa.
Rainha e escrava.

Comboio e barca.
A viagem, mesma.
Partiu e marcha.
Sentido, de ida apenas.
Destino igual.
A todos leva.
Eternidade.

Ouvindo Vespers de Rachmaninov
Berlim, 7 de Janeiro de 2018
8h51m
Jlmg

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Chegou-lhe o fogo



Despedida do passado

Foram ínvios os seus caminhos.
Nasceu no sítio ou no tempo errado.
Menino prendado se abalançou ao sonho que despertou na sua mente e foi.
Deixou o seu torrão.
Arrostou de frente como outro qualquer os dissabores da vida.
Afinal, tudo não passava duma quimera.

Eram falsas as pessoas.
Se revelou um palco a vida onde singra só quem é arrogante.
Frustrações atrás de frustrações.
Solidão e desespero foram a calda azeda em que cresceu.

Até que atingiu o seu limite.
E desapareceu do palco.
Abandonou a cena.

Aí errou. Em vez de trocar de campo,
Onde imperasse a natureza,
Em estado mais puro,
Despiu a camisola e lançou-se, sózinho, ao mar do mundo.
Rumo a um objectivo incerto e indefinido.

Insegurança e crueldade.
Sobreviver em cada dia e assegurar o futuro da melhor maneira, foi sua ventura.
Respeitando sempre sua identidade.

E, assim foi.
Hoje, o passado é uma fonte de pesadelos.
Uma tormenta diabólica em cada noite.

Por fim, livrou-se dela, com uma catarse profunda ao seu percurso.

Juntou tudo, fez um monte, chegou-lhe o fogo.
Ao cabo de umas horas, tudo era cinza.
E assim, ficou mais leve para viver a vida, instante a instante.

Ouvindo Sibelius, sinfonia nº 6

Berlim, 6 de Janeiro de 2018
6h25m





Feitiço do Alentejo

O feitiço do Alentejo

Vasto e plano Alentejo.
Coberto de sol, casinhas e igrejas caiadas de branco.
Reino dos montes e montados onde o sobreiro e o pinheiro manso são reis.

Terra das vilas brilhantes, cercadas de campos e planuras, pintadas de todas cores do arco íris, na flor da Primavera.

Celeiro a abarrotar de milho e de centeio, de hastes bamboleantes ao vento suão.
Onde o vinho é fogo preso nas adegas frescas.

Terra povoada de gentes alegres e boas. Acolhedoras de quem lá passa. Sabem fazê-lo como ninguém.

Chão onde só péga a semente da verdade. A da mentira seca ali enterrada para sempre. Nunca chega a germinar.

Felizes os que tiveram a sorte de lá permanecerem, mesmo por poucos meses. Como eu. Palmilhei pelo Alentejo quando era jovem, no serviço militar e fiquei para sempre enfeitiçado…

Berlim, 5 de Janeiro de 2018
15h56m
Jlmg

Contrapeso da esperança

O contrapeso da esperança

Na barca da vida, por vezes, o mar ameaça.
Um barco à deriva arrisca naufrágio.

Não basta a força dos braços nos remos.
Não basta a coragem.
É preciso um lastro bem forte e um leme.

Sem esperança e sem fé o barco balança e ameaça afundar...




quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Que bem se vestem as pedras



Que bem se vestem as pedras…

Duras, secas, agrestes.
Muitas vezes disformes.
Avessas à ordem.
Cravadas, coladas ao chão.
Sentem o peso dos pés à cabeça.

Permanecem inertes se ninguém as tocar.
Se deixam levar. Nunca dizem que não.

Servem para tudo.
Constroem castelos e muros.
Dividem as terras. Seguram os pesos.
Até como armas. Enchem as fundas.

Parecem sem alma, mas não.

Muito vaidosas se arranjam com esmero.

Amaciam com o tempo.
Arredondam as arestas.
Ficam luzentes.

Mergulhadas no mar, vestem de limos, pintadas de verde.
Expostas na terra, à chuva e ao sol, se cobrem de musgos e heras.

São majestosas…

Berlim, 5 de Janeiro de 2018
5h55m
silêncio e negrume da madrugada
Jlmg





O reino da escuridão



O reino da escuridão

Túnel, sombrio e espesso, reino de trevas.
Espaço sem luz, nem a luz o acende.
Encontro do nada com o todo apagado.

Às vezes, macabro. Outras, repasto das lendas de assombro.

Esconde figuras. Sem alma nem forma.
Abrange o passado sem tempo
E o tempo sem espaço.

Fantasma alado de asas partidas.
O silêncio o habita.

Poço bem fundo cheio de bruma que o silêncio secou.
Candeia apagada que o pavio queimou.

Corpo já morto nem alma deixou.
Caverna sem porta enterrada no chão.

Berlim, 4 de Janeiro de 2018
18h17m
Jlmg







Meio ano



Meio ano

Três mais três somam meio ano.
Meia volta que a terra dá ao sol.
Uma ida e uma volta à terra onde nasci.

O tempo suficiente para chorar o que perdi e tentar o que sonhei.

De escrever um livro inteiro onde conte o que eu fui.

De comer do meu celeiro a colheita que lá guardei.

De dar a volta ao mundo num barquinho de papel.

De acrescentar um outro filho se lhe somar mais uns três.

É a conta certa que só Deus fez…

Berlim, 4 de Janeiro de 2018
9h23m
Jlmg