terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Digno de registo



Digno de registo

Aqui em Berlim e, por certo, em toda a Alemanha, a noite da passagem de ano é uma loucura de fogo.

Quem o bota são as pessoas, nas ruas e largos dos bairros.

Sobem para o ar toneladas de fogo. Feérico. Com estrelas cores.
Ensurdecedor. De perder o juízo.
Pequenos e grandes se passam. Como miúdos.

Braçadas de foguetes e bombas se vendem nos supermercados como quem compra balões.
O resultado de sempre. Pela manhã, passeios e ruas ficam cobertos de “canas” e canudos sem nada.

Passam as festas. Se sai de manhã. O trabalho não espera.
Brigadas inúmeras, com todos os apetrechos, procedem à limpeza do que os outros fizeram, usando um direito.
Em poucas horas, fica tudo a espelhar…

Berlim, 2 de Janeiro de 2018
9h08m
Jlmg

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Começou a viagem



Começou a viagem

Começou a viagem. Sem destino marcado.
Vamos todos, mundo afora.
Um mar de incertezas.

Ronca o motor.
Depósito cheio.
Se sobe e se desce.
Um dia. Uma noite.
Um dia. Uma noite.
Trabalha e descansa.
Viver é fugir com a sorte.
A morte, real ou aparente,
Se esquece que espera.

Sem bagagem. Sem armadura.
O motor acelera ao sabor da luz e do gosto de viver.
A esperança é a brisa. Refresca e consola.
A sede se mata e renasce.

O dia tem cor. A noite só é negra sem sonho.

Às vezes, cair acontece.
Se chora e se ri. E se colhe.
A marcha prossegue. Sem conta nem dúvida.
Se trava e acelera. Conforme o declive.
A mente sadia repara e conduz.

Um veto. Olhar o passado.
O que conta é o passo da hora que vem.
Para todos é assim. É lei…

Berlim, 2 de Janeiro de 2018
7h57m
Jlmg

Se eu pudesse



Se eu pudesse

Se eu pudesse, passava a vida a escrever.
Falando de mim. De alguém. Da vida em redor.

Agitava as águas. Fazia ferver. Pior que a letargia é morrer devagar.

Há tanto em nós como no seio do mar.
Fervilham as ideias. Feixes de luz.
Iluminam o mundo.
O tornam melhor.

Escolhia as cores. Pintava um quadro.
O céu e o mar.

Suavizava a vida. Calor do amor.
Quebrava as quimeras.
Seguia meus sonhos.
Chegaria ao infinito
E voltava a escrever.

Ouvindo “serenata” de Schubert
Berlim, 1 de Janeiro de 2018
18h12m
Jlmg

Sabedoria oculta



Sabedoria oculta

Abundam pedaços de sabedoria espalhados pelo mundo, que a sabedoria de hoje só vê.

As pirâmides estão lá. Estão cheias de quê?
Que dizem as pinturas rupestres?
As antas e menhires, sem alavancas ou máquinas, como foi que apareceram?

Que escondem em si aqueles astros brilhantes, será que têm vida.
Se sim, como e para quê?

Vemos mais e melhor de olhos fechados, o pensamento voando, entrando num mundo, não sabe qual é.

A vontade que temos, de mais e melhor, precisamos de pouco para ser o que somos.
Somos os mesmos com muito ou com pouco.
O mundo evolui. Ficamos os mesmos.

Berlim, 1 de Janeiro de 2018
16h25m
Jlmg


Aguarela da tarde

Aguarela da tarde
De caixa na mão, subo a encosta.
Tarde de inverno.
No horizonte ao longe,
Entre as nuvens,
Espreita o sol.
Feixes de luz se espalham no vale.
Faíscam à tona, as águas do rio.
Uma brisa serena faz vibrar o arvoredo.
Há gado esquecido, vagueando nos prados.
De nuas se vestem as latadas sem uvas.
Pelas veredas da encosta, escorrem pacatas as cabras.
Saem das casas caladas serenas volutas de fumo.
Num tanque de pedra escondido, as mulheres trocam notícias e lavam as roupas.
Não me faz falta o azul. Está acizentado o céu.
Refulgem o amarelo, o castanho e o negro da terra.
Está pronta minha aguarela da tarde nesta tarde de inverno…
Berlim, 1 de Janeiro de 2018
13h10m
Jlmg

O primeiro poema

O primeiro poema...
Sem casca nem gema, pégo na pena.
Procuro abrir a porta fechada.
Mudo de chave. Ensaio e tento.
E em remoinho me bailam ideias.

De repente, há um vulto que chega.
Uma pomba com uma prenda no bico.
Desato-lhe os laços.
Abro a caixa.
Um papelinho de bordos doirados,
dobrado em quatro.
Sustenho o ar.
O estendo e fico a lê-lo, primeiro para mim:
Medito. Vem do além.
- Não temas. Avança. Confia.
Lança-te à água.
Deixa esta margem.
Pró lado de lá.
De longe, tudo assume a forma
e ganha sentido.
O essencial avulta.
O acessório se esvai e reduz.
A distância e a luz fazem brilhar.
Surgem os tons.
O claro e o escuro.
As cores.
Palpita a vida nos seres.
Uma brisa leve e fresca se solta.
O silêncio bafeja.
A alma sobe e medita.
A verdade do ser.
O passado se esquece.
Olha-se além.
Se rasgam caminhos.
Em passadas seguras no chão,
O futuro acontece e se escreve.
Berlim, 1 de Janeiro de 2018
10h39m
Jlmg

domingo, 31 de dezembro de 2017

Canecos da nora...



Canecos da nora…

Em golfadas de Agosto, milheirais em flor.
O calor apertou.
Amarra-se um boi à vara da nora.
Roda que roda.
O boi espuma da boca
E a nora vomita.
Golfadas sem fim.
Enchem o rego.
Banham os pés das hastes de milho.

Ouve-se o trinco da nora segurando os canecos.
A terra bafeja e suga que suga.
Adormece em deleite.
Lá para Setembro, a espiga está seca e madura.
Vem a colheita na festa dos campos.
Se enchem de milho os celeiros famintos.

Derramam-se as rasas no ladrilho da eira.
E, na hora certeira, se guardam nas arcas esperando a mó do moinho…

Berlim, 31 de Dezembro de 2017
10h11m
Jlmg