domingo, 24 de dezembro de 2017

Diante duma tela em branco...



Diante duma tela em branco…

Concentrado. Pincel em punho. Olhando a tela.
A mente ferve.
Não sou pintor.

 O pensamento vagueia.
Mira do alto e ao longe.
Como um condor.

De repente, sob um arbusto, algo que surge.
Desfecho-lhe uma frecha.
Faço uma presa.
Se inflama a fogueira.
Há labaredas.
Sentimento a arder.
É fumo branco.
Sem fumarolas.

Bate-lhe o sol.
Muda de forma.
Muda de cor.

Figuras rupestres.
Aves canoras.
Prados lacustres.
Searas doiradas.
Medas de trigo.

Ceifeiras cantando.
Debulham sorrisos.
Carradas de grão.
Enchem celeiros.
Moinho no rio.
Mó de moleiro.
Neve macia.
Farinha de pão.

Lindo quadro,
Poema de estio,
O vento secou.

Berlim, 24 de Dezembro de 2017
13h11m
Jlmg

Reflexão...

Reflexão...
Essa bomba, constante companheira, junto ao corpo, todo o dia.
Que nos liga a todo o mundo pelas ondas hertzianas.
As recebe e irradia em alta frequência.
Nos trespassam internamente todas as células.
Alterando suas órbitas.
Sabe-se lá com que efeito.
Vai connosco para todo o lado.
Será responsável de tanto cancer nestes tempos hodiernos?
Nunca houve tantos...
E tão acérrimos...
É o telémóvel e a televisão que é tão útil.
Mas a que preço!...

sábado, 23 de dezembro de 2017

Manada de bois...



Manada de bois bravos…

Uma manada de bois bravos zarpou das verdes boninas do Ribatejo e veio passear-se pelas ruas mansas de Lisboa.

Suas hastes hirtas e retorcidas se agitavam curiosas, contemplando extasiadas, as vitrinas resplandecentes, nunca vistas.

Cerimoniosos, como damas, se afastavam, fazendo alas,
Para passarem os eléctricos amarelos pelos seus trilhos reluzentes.

Ao dar de frente com o cavalo de dom José, se tresmalharam receosos,
pelas ruas estreitas até ao Rossio.

Subiram atentos, a avenida larga da Liberdade,
e, embasbacados, se quedaram, frente à altiva estátua do Marquês, segurando pelas rédeas o seu cavalo.

Flectiram à Estrela, a rezar uma ave-maria:
- Nunca lhes faltasse a erva verde ou a mesmo a palha, pelos estios quentes à beira Tejo.

Subiram a visitar os seus parentes já partidos, nos Prazeres.

Mas foi frente a São Bento das portas francas, que especaram.
Para ouvirem as atoardas, que soltavam lá dentro, os representantes.

Tranquilamente, desceram até ao Tejo.

Ali ficaram a ver lá longe, o outro lado. O mesmo rio, ali tão largo.

Se encheram  com tanto toiro todos os bojudos batelões que ali boiavam.

Era noitinha, quando se viram de novo, a pastar pelas lezírias,
bendizendo aos céus pelo passeio, em boa hora, desde ali até Lisboa, a capital…

Berlim, 23 de Dezembro de 2017
17h22m
Jlmg

A greve das galinhas...

A greve das galinhas...

Espalhadas pelas encostas, expostas ao rigor do tempo, as galinhas viam-se gregas para sobreviverem à fome.

De vez em quando, havia alguém que vazava sobre a estrada ao fundo, uma rasa de milho em grão.

Quando uma delas dava conta, ei-las que, voando ou por terra, se lançavam numa louca correria.
O grão não dava para todas.

A estrada era um mar de galinhas.

Havia luta. Por amor da sobrevivência.

Boa lição para os humanos.

Não há sindicato capaz de as lançar na greve...

Bar do Edeka em Berlim, 23 de Dezembro de 2017
10h55m
Jlmg

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Sinfonia do desterro...



Sinfonia do desterro…

Quem na vida, alguma vez, não habitou na morada do desterrado.
Para onde a má sorte o empurrou.
Ver de longe a terra doce onde nasceu.
Sentir saudade duma simples alface.
Visitar o google earth, um milhão de vezes, se já o houvesse.

Olhar a lua alta, brilhante e bela e sentir-se a vê-la da sua janela.
Reler mais uma vez a derradeira carta
Como se chegasse agora.
Mirar a foto d’alguém querido e querer dele um seu abraço.

Ainda está para nascer para quem seja novidade alguma delas…

Berlim, 22 de Dezembro de 2017
17h39m
Jlmg


Mais um pouco e...

Mais um pouco e…
Mais um pouco e, num instante, vem a ausência de quem se queria perto sempre.
Um filho ausente que ficou e parte.
Alguém de perto que, por razões da vida, se fecha em si e não está.
Quem partiu para longe e não dá notícia.
Aqueles nossos que deviam estar, mas a quem, para sempre, acabou o tempo.
É a vida em movimento. 
Tão bela e tão fugaz.
O que verdadeiramente conta é bem e só o instante, sem passado nem futuro…
Ouvindo 
Once upon a time in Paris de Erik Satie
Berlim, 22 de Dezembro de 2017
9h19m
Jlmg

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

A verdade das pedras...



A verdade das pedras…

Nuas e cruas se expõem ao tempo.
Fazem calçadas. Erguem muralhas.
Cercam castelos.
Abrigam as casas, de renda ou compradas.
Mantêm a forma desde o ventre da terra.
Quase infinitas. Resistem milénios.

Se mostram agrestes. Macias à água.
Moem farinha na mó do moleiro.
Tecem as lajes que a morte ditou.
Perpetuam a forma do rei que morreu.

Quem dera que a vida terrena fosse doce e eterna
E a morte tivesse a sorte da pedra na hora da morte.

Berlim, 21 de Dezembro de 2017
20h41m
Jlmg