quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Valados verdes...

Eram verdes os valados...

Eram verdes os valados dos caminhos.
Eram tantos, como as veias por onde iam e vinham,
aquelas gentes belas do meu passado.
Me viram nascer.
Me queriam bem.

Uma a uma, todas foram.
E os caminhos, sem valados,
viraram estradas, com bermas secas.

Eram de pedra as casas pequenas.
Duas janelas. Uma porta ao meio.
Mas com jardim.
Eram bem simples e cheiravam bem.

Um limoeiro. Com flor e fruto.
Uma oliveira de azeitonas pretas.
Um poço ao fundo.
O tanque da rega,
Onde se lavava a roupa e tomava banho.
Havia figos, pelo são joão.
Da figueira tenra
que o avô plantou.
Uma cerejeira.
Era um triunfo.
Pelo mês de Maio.

E, no quintal, conforme a época,
Crescia de tudo.
Tomate e alface.
Batata e couve.
Era um regalo.
Com adubo puro.
Só biológico,
Como mandava a lei...

Jlmg


As palmas...



As palmas…

Pendem do alto as palmas caiadas de verde e frescura.
Um lago sem elas é triste.

Se abrem as cortinas do palco. Vermelhas.
Um piano preto, calado.
Rodeado duma plateia de cadeiras vazias.

A sala expectante está cheia. Olhos e ouvidos abertos, acesos.

Eis que dos lados se abrem as portas.
Entram em fila, agarrados às mãos, os violinos e tubas, trombones.
Sorriem os rostos emersos dos fraques.
Conformados ocupam as cadeiras calados, os músicos e abrem as pautas.

E, na hora esperada, estrondam as palmas em rajadas de chuva.

E um vulto esguio, elegante, em passadas fidalgas,
Aparece. Lhe brilham os olhos.
Os lábios sorriem.
Chega à frente, no meio.
Afogado na vaga de palmas,
Reverente, se verga.
Esperam-no as dezenas de teclas,
Pretas e brancas, mortas de tédio.

Olha o maestro,
De braços abertos e batuta na mão.

Tudo ensaiado. Na véspera.

Ressoam com força no alto os tambores retesados de couro.
Bailam os arcos em golpes nas cordas, soltando gemidos às cores.

O caminho se abre.
E uma melodia divina com vestes de gala, surge fulgurante, como foi concebida.
O piano se sente atiçado.
Soltam-se as teclas agudas.
Bramem do fundo acordes barítonos.
Pressurosos em fúria, correm os dedos,
Num desatino aparente.

Sobem ao ar baforadas de sons.
Numa harmonia total.
É a hora da festa total que a pianista sonhava desde menina…

Berlim, 2 de Novembro de 2017
9h7m
Jlmg



quarta-feira, 1 de novembro de 2017

A Terra e o Sol...



A Terra e o Sol…

Preocupam-me a Terra e o Sol.
Milénios de milénios, brilharam no mundo.
Semeando a vida. No silêncio astral.

Acabada a aventura, temo o escuro das trevas e a morte geral.
Renasça o nada das cinzas.

Acabe-se o tempo. Este vagão carregado. Parado para sempre, sem sopro.
Cessem as dores e as penas.
Se rasguem as vestes e vença a nudez.
De resto, a verdade total.
Tudo ao começo. Mais vale que o estertor da imundície a que a humanidade chegou.
Um deserto do bem. O reino do mal…

Berlim, 2 de Novembro de 2017
7h29m
Jlmg

Renova-se de verde...



Renova-se de verde…

Renova-se de verde o bosque queimado.
Renascem das cinzas as urzes bravias.
O ar carregado se dissipa ao vento.
Regressam de longe as crias fugidas.
Depressa, se esquecem as agruras passadas.
É a natureza em marcha carregada de vida.

Mas na aldeia, tingida de negro,
Se renovam as casas e, para sempre, choram os mortos.

Berlim, 1 de Novembro de 2017
20h24m
Jlmg


terça-feira, 31 de outubro de 2017

Castanhas assadas

Quentes e boas...
Eram as castanhas assadas em brasas. No canto da Esquina. 
À dúzia. Enchiam os bolsos.
Por cinco tostões.
Regalo dos pobres,Com pouco.
Em público.
E dos ricos, nas salas fidalgas,
Sózinhos, de bicoscalados.
Caíam de cima pela força do vento.
Cobriam o chão.
E a pequenada descalça,
Calejada nos pés,
Calcavam os picos
E as soltavam de vez.
Umas eram logo comidas,
sem casca.
Outras assadas com fogo,
Do tojo ou carvalho.
Pareciam cabrito no forno.

Donde lhes vem tanta força?...

Donde lhes vem tanta força?...
Aquela força telúrica que lhes ferve nos braços.
Batendo o malho de aço na bigorna da forja.
Batendo os guilhos rubros em brasa.
São dúzias que mergulha em toques na água negra da celha.
O fole em couro sopra golfadas de ar para dentro da forja.
Crescem no chão terreno montões de guilhos tratados.
Vem o jumento. Espumando da boca.
Enchem-lhe os cestos de vime. No dorso potente.
E o moço a pataco por dia,
Tange-lhe a vergasta nas costas.
O burro acelera.
E amigos, sozinhos, sobem e descem nos caminhos dos montes até às pedreiras da serra.
E os pedreiros bravios ao sol,
Diante dos blocos gigantes,
Cravam-lhe os guilhos nos buracos em fila.
Depois, com a mestria que herdaram,
Marretam pancadas com força.
O monstro de pedra estendido no chão
Geme que geme e estala…
Milagre. Sem pólvora …nem seca.
Berlim, 31 de Outubro de 2017
13h52m
Jlmg

O comboio não vem...

O comboio não vem…
O comboio não vem.
Não posso esperar.
Me faço ao caminho.
É longe o destino.
Lá hei-de chegar.
Que saudade eu sinto,
Minha terra natal.
Corre em meu sangue,
O fogo de lenha,
Serões à lareira,
Panela do lar.
Ouvindo o sino
Cantando as horas.
Nasceu um menino,
A família que vem,
Há rancho da festa.
Vai demorar.
Saudades da Páscoa.
Visita da cruz.
Que bom o perfume,
Quando a ia beijar.
Do fato de terno,
A saia bordada,
O vestido da moda.
O verniz do sapato,
Feito à medida.
As bolhas dos pés
Enquanto ajustava.
Aquele era mundo.
Se calhar já não existe…
Berlim, 31 de Outubro de 2017
10h37m
Jlmg