domingo, 22 de outubro de 2017

Barco à vela

Barco à vela…
Sou barco à vela que escreve no mar.
Suas linhas são as ondas.
E as palavras são espuma e são sal.

Me inspiro no vento que cava e agita.
Deforma e transforma.

Recebo-lhe a força e avanço.
Inflama minha alma e acende.
Me ilumina o caminho.
Não olho para trás.
Leio as estrelas que brilham ao alto.
Escreveram figuras que falam
No quadro dos céus.
Não foi por acaso.
Meus olhos as miram devotos.
Elas me apelam.
Não guardam segredo.
Tento entendê-las.
Parece que acenam e falam para mim.
Celeste mensagem do eterno para o mundo.
Berlim, 22 de Outubro de 2017
18h31m
Jlmg

Os vira-casacas...



Os vira-casacas

Eu era miúdo. Nos tempos pós-guerra.
Eram de fome.

De vez em quando, chegava um freguês:
-Ó Quinzinho. Pode virar-me este fato?
Meu Pai saudoso, era alfaiate, o estendia na mesa, examinava.
- Sim senhor.
Pode vir buscá-lo p’rà semana.

Os tempos passaram.
A guerra amainou.
Mudou-se a fome.
Agora é de vergonha.
Dum dia para o outro, a toque dos ventos,
Se vira a casaca,
Nem precisa alfaiate…

Berlim, 22 de Outubro de 2017
9h19m
Jlmg


sábado, 21 de outubro de 2017

Um mar que sobra...



Um mar que sobra…

Sobra o mar que banha a terra.
A encheu donde ela fugiu.
Deu-lhe as praias que depois doirou.
A abraçou quando ela afundou.

Acolhe os rios que da terra fogem.
Enche as nuvens que lhes regam chuva.
Agita o vento que lhe adoça o rosto.
Dá-lhe o peixe quando falta a carne.

Quer-lhe bem como só ele pode.

A ama sempre quando ela precisa.
Quando ele chama, logo ela atende.

Por vezes se zanga e logo acalma.
União igual nunca se viu nem vê.

E, para ambos, o homem é tudo…

Berlim, 21 de Outubro de 2017
13h4m
Jlmg


sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Tudou mudou

Tudo mudou…

 
Agora, quando olho uma montanha verde, uma floresta,
Já não me resta o sonho mas o medo de que, um dia, o fogo e o vento, intervenção humana ou mão celeste,
A desfaça em cinza negra, num mesmo dia.
Onde, então, se poderá poisar aquela segurança e paz que foi a base de tanto sonho e dava sentido à vida?
Basta ver aqueles milhares de hectares de hercúleo arvoredo,
cercados de aldeias belas do nosso País, como tudo ardeu, sem qualquer defesa.
Nunca alguém pensou que isto poderia ser e foi…


Berlim, 20 de Outubro de 2017
20h8m
Jlmg

As carências...

As carências…

A toque certo de viela e manivela, sobre os trilhos da existência, marcha o comboio desta vida.

Ora lento ora lesto.
Ora sobe ora desce.
Da carência para a abundância.
Sem descanso.

Assim avança.
Consome e vai.
Até que falta.
Puxa, arranca.
Puxa, arranca.

Assim corre, incansável,
A viela e manivela.
Puxa, avança.
Enche e gasta.
Enche e gasta.
Em sequência.

Forte e lassa.
Forte e lassa.
Assim, marcha.
Assim, marcha.
Carente e confiante.
Até que chega e pára.

Berlim, 20 de Outubro de 2017
10h0m
Jlmg









quinta-feira, 19 de outubro de 2017

O Tratado da Insolência



O Tratado da Insolência

Anda por aí um livro de grande tiragem, denominado 

– Tratado da Insolência -.

Foi adoptado como livro base, de formação política, por aquela ala de políticos baixos,
Que a utiliza como escada na vida.
Em vez da escola.

É o vale tudo. Acabou-se a Ética.
Para derrubar o adversário.
E lhe ocupar a cadeira.
Tudo serve.

- Mentir? O mais que se puder.
- Ofender? Que mal é que tem?
É o bota-abaixo, de qualquer jeito.

- Assumir as culpas próprias e responsabilidades? Que estupidez! Nem pensar nisso.

- Imputá-las aos outros. Assim é que é.

Se quer ser insolente…deve comprá-lo.
Ficará mestre!...

Mas, por favor, emigre para bem longe…
noutro planeta que não a Terra.

Berlim, 20 de Outubro de 2017
5h10m
Jlmg



quarta-feira, 18 de outubro de 2017

A Responsabilidade

A responsabilidade…
Cansada. Ninguém a chamava.
E tanta desgraça malvada.
Fez suas malas.
Pela calada velada, partiu.
Ninguém sabe onde pára.
Bem clamam por ela, a gente ultrajada.
Como erva daninha, 
a irresponsabilidade e o crime cresceu. Espalhou-se. Tudo cobriu.
Do rei ao lacaio.
Calamidade infernal.
Não há quem acuda.
A peste é geral.
Morreu a moral.
A responsabilidade fugiu.
Impossível voltar ao princípio.
E o pior, só se vive uma vez…
Berlim, 19 de Outubro de 2017
8h18m
Jlmg