domingo, 15 de outubro de 2017

Preto, rosa e violeta...



Preto, rosa e violeta…

De preto, rosa e violeta,
Mais uns laivos esverdeados,
Se vestem as orquídeas,
Parecem mesmo umas princesas.

Tanto garbo e harmonia que estonteia nossos olhos.
Na singeleza pura do seu desenho.
Tanta arte, tanta mestria,
Que maravilha de quadros nos pinta a natureza, na estática imobilidade,
com reflexos de divino.

Nada cobram.
São benditas. Benfazejas.
Só adornam e suavizam as amarguras inevitáveis que toldam de dor as nossas almas.

Ouvindo Sinfonia nº 2 Adágio de Rachmaninov

Berlim, 16 de Outubro de 2017
7h50m
Jlmg


O Alentejo

O Alentejo
À sombra de sobreiros desgrenhados
e mansos pinheiros, de copas rondas,
o Alentejo loiro dorme sonolento.
Pelas trincheiras sombrias das colinas longas, escondem-se os montes onde vivem alentejanos.
Quase parados os rios e riachos deslizam como serpentes benfazejas.
E as aves corpulentas vindas das Arábias sacodem suas asas de contentes.
Das albas chaminés das casas afitadas de azul,
Se evola o fumo branco como bandeiras desfraldadas.
Perdidos pelos montados, pastam os toiros, sacudindo suas caudas.
Por todo o lado, há lufadas de paz e de magia.
Só quem lá passa e atravessa o sabe e sente.
Ouvindo Amália Rodrigues
Berlim, 14 de Outubro de 2017
9h40m
Jlmg

Mais um pouco...

Mais um pouco...
Não me sai da cabeça este tema.
Não sei se já o li nem onde, nem de quem.
Vou segui-lo e ver onde me leva.
Pelo meu pé.
Mais um pouco e serei astro.
Sem ser estrela.
Diadema de rei ou dum herói.
Serei mar ou só um rio.
Já fui pobre. Agora rico.
Vivi na sombra. Um deserdado.
Sempre acesa a minha chama.
Bem desperto. Muito atento.
Guardando o belo e o bom.
Na hora certa, a porta abriu.
A luz entrou.
Que mar azul.
Seara verde.
Jardim em flor.
Árvores com fruto.
Quase a cair.
Foi só colher.
Enchi os cestos.
Chamei amigos.
Ofereci ao mundo.
Nada sobrou.
Sejam doces e façam bem.
Mais um pouco e será tudo...
ouvindo Dulce Pontes
Berlim, 15 de Outubro de 2017
9h9m
Jlmg

sábado, 14 de outubro de 2017

Tasquinhas de Lisboa



As tasquinhas de Lisboa

Espalhadas pela cidade, nas ruelas escurecidas, onde passam os eléctricos,
Se evolam fados, retinem as violas,
E as vozes, mesmo roufenhas,
Entoam canções carregadas de lamentos.

Cantando dores, mágoas passadas,
Escorreram pelas escadas,
Como um rio sonolento.

Lá no alto o castelo,
Ameias frias, quase geladas,
Do Tejo a brisa e mar sedento,
Ao longe o Cristo, acalmando os ventos,
E uma ponte de gargantilha.

Pelo rio os traços dos velhos cacilheiros,
Sulcando o Tejo, fazendo pontes.

Pelas colinas se estendem telhas,
Em mantas vermelhas,
Orando aos céus.

Ouvindo Dulce Pontes

Berlim, 14 de Outubro de 2017
8h58m
Jlmg




sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Quem disse que não?

Quem disse que não?...
Há corvos no mar. Quem disse que não?
Há pastores e duendes.
Bosques e cabras.
Silvas de amoras.
Caminhos pedestres.
Com gaios e rolas.
Arvoredos gigantes.
Gaivotas poisadas,
Esperando cansadas.
Penedos à solta, brincando à bola.
E frades astutos.
Cantando as vésperas.
Sem carros nem trens.
Andam, desandam os nautas,
Buscando além.
Quimeras ao longe de desertos ao sol.
Oásis de sombras.
Com fontes nas copas.
Coqueiros luzentes.
Solitários, andejam camelos,
Esfregando as bossas.
Carregam o sal,
Fermento de paz para a secura das bocas.
Quermesses vermelhas,
Enfeitadas de algas.
Promessas perenes de paz e sossego.
Ouvindo Sibellius, en Saga, Ashkenazy
Berlim, 14 de Outubro de 2017
7h58m
Jlmg

Envolto em nevoeiro

Envolto em nevoeiro


Parto envolto em nevoeiro para mais um dia que nasce.
É forte a esperança de chegar ao porto seguro como um barco que saíu à pesca.
Me adorno com as plumas diáfanas da fantasia.
Abro minhas asas.
Meu suspiro devassa a espessura densa que tapa a terra.
E alcança breve as alturas metafísicas dos astros livres.
Onde, em esplendor perene, reina o sol e brilha a lua.
Onde os sonhos moram. Doce reino de fadas, duendes e poesia.
Onde o vento silva de cor as maviosas melodias da natureza.
A obra-prima do Criador…
Ouvindo Dulce Pontes
Berlim, 14 de Outubro de 2017
7h17m
Jlmg

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

São verdes e negras...

São verdes e negras…
São verdes as folhas que brotam da seiva da terra.
As capas e mantas que cobrem as serras e vales.
Os fundos imensos na obscuridade dos mares, coberta de limos e algas.
São negros os fumos das fábricas que devoram os ares.
A metralha mortífera que jorra dos castelos da força.
Os ditames tiranos das leis do dinheiro que manietam as almas e aprisionam os sonhos.
Secaram as fontes que jorravam amor do ventre da terra.
Soam gemidos e gritos pelos quadrantes do mundo, clamando justiça e paz.
Desfeita de dor, agoniza a esperança, aquele sopro divino aceso na alma dos povos.
Ouvindo Sibellius
Berlim, 13 de Outubro de 2017
6h3m
Jlmg