segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Nos arcanos



Nos arcanos

Naquelas fragas descarnadas das falésias,
Sobranceiras à planície, vasta,
Vegetam cabras, se escondem os ninhos das águias e dos condores.

Vivem suspensos, contemplativos, quase nas nuvens,
Semideuses da liberdade.

Sem metafísicas. Não têm horas.
A sobrevivência é sua luta.
Não têm horta. Agricultura.
Enxergam de longe, com precisão exacta,
O que precisam na hora.

Em voo alado, tangido ao vento,
Suas presas ficam reféns.
Depois a boda farta. A mesa posta.

Ali descrevem a sua história em forma livre.
Não têm segredos.
Dão-nos lições.

Berlim, 26 de Setembro de 2017
7h44m
Jlmg



domingo, 24 de setembro de 2017

Soltei minhas penas ao vento

Soltei minhas penas ao vento

Soltei minhas penas ao vento.
Uma nuvem que tapou o sol.
Carpi minhas dores junto a um rio seco.
O inundou e encheu o mar.

Sinto em mim o peso do meu passado.
Aqueles negrumes dos anos cinquenta e três que levaram a minha Mãe e, pouco depois, meia dúzia de anos, o meu Pai.

As escarpas duras dum claustro negro onde o sol só batia a prumo.
O ribombar ao longe dum canhão soturno apontado ao meu quartel.
Trazia acesa a morte.

O terror dos exames da escada íngreme que me levaria ao sol.

Tudo eu sinto em escala viva.
Fizeram de mim aquilo que agora sou.

Berlim, 24 de Setembro de 2017 ,
20h18m

Ouvindo Kahtia Buniatiswilli tocando Rachmaninov
Jlmg

Vozes do meu passado



Vozes do meu passado

São tantas as vozes do meu passado.
Bem presentes, o seu timbre, inflexões de voz,
seu entoar de palavras, saudações.
A imagem dos seus rostos.
De alegria e de tristeza.

Enchiam de vida os dias.
Os figurantes no mesmo cortejo.

Me ponho a lembrá-los.
Passavam à minha porta.
Indo para a vila.
Indo para a feira.

O senhor Fernando Babo. Vinha da Lage.
Nariz vermelhusco. Era da pinga.
O senhor Dias. Boa pessoa.
Tinha voz grossa.
Emprestava dinheiro sem qualquer papel.
Vinha a cavalo. Lá do Xintado.

Minha avó Emília, presa à cadeira.
Sempre zangada. Um rancho de filhos.
Meu avô José, um bom dum homem.
Não tinha inimigos. Ajudava à missa e repicava o sino.

Minha avó Margarida. Ó que doçura.
A dizer com o nome.
Era uma festa quando eu chegava.

E, sei lá tantos!...Já cá não estão.
Tanta saudade.

Berlim, 24 de Setembro de 2017
19h31m
Jlmg