quarta-feira, 7 de junho de 2017

Serviço...



Serviço…

Aquele bocado ou pedaço da vida
Que trocamos com os outros.
Aquele espaço do tempo
Em que somos e não somos para nós.

Os frutos que damos retirando a semente.
Obra das mãos,
Concebida na mente,
Pertencem aos outros,
Mas são parte de nós.

Quem só vive para si,
Julgando-se rei,
Torna-se um escravo
Que não serve para nada…

Berlim, 8 de Junho de 2017
7h26m
Jlmg



terça-feira, 6 de junho de 2017

Leitura das almas

Perscruto nos olhos das gentes
suas almas ocultas.
Nuvens de angústia toldam seus rostos.
...
O peso dos anos é muito
e escassa a esperança de vida.
É brando o fogo que lhes arde lá dentro.
Aquele apelo de luta que o dia-a-dia exigia
extinguiu-se com a última saída dos filhos.
Agora, navegam sózinhos, ao longe,
no mar das distâncias.
Implacável é a lei que assim ordenou,
sem prévia consulta,
a ver se as almas assim o queriam...

Bar do Reichelt em Berlim, 7 de Junho de 2017
8h47m
Jlmg

Sarilhada de fios

Sarilhada de fios

Para pôr o computador a carburar,
Há uma sarilhada de fios a desenlaçar.
É o da corrente que se esconde na mala enrodilhado.
É o rato ladino que se esgueira ao trabalho como um rato.

É o da net que se emaranha numa teia sem aranha.
E o dos fones para calar os megafones.

Só depois eu páro e acendo a combustão.

Depois, é o clarão do mundo que se abre e aproxima.
Vêm as boas e muitas más.

Uma a uma, se acende verde o facebook.
Vem a troca. Cada um com seu farnel.
Cada um o seu sabor.

Aqui se chora, ali se ri.
Há os sérios e meditabundos.
E os cegos que só a si se vêem.
Mas também os generosos.

Os que pintam e os que escrevem lindamente.
Cada um na sua língua.

Depois, é a debandada.

Valeu a pena a trabalheira...

Berlim, no bar do Reicheld, 6 de Junho de 2017
8h55m
Jlmg

sábado, 3 de junho de 2017

Hora da sorte

Hora da sorte

Nem sempre para o céu.
Também é bom olhar para o chão.
Até para não tropeçar.
Desta vez, foi outra razão.

Ia eu pelo meu caminho.
Vendo as pombas a debicar.
Os passaritos sempre a pular.
Um canito esperto, preso à trela.

Ouvindo o ribombar dum avião.
Olhando as folhas ao alto a baloiçar.
Uma canadiana em cada mão.
Passo a passo, em certeiro toque.

De repente, olhei para o chão.
Dobradinha em duas dormia uma nota.
Era verdinha. De cinco euros.
Reclinei-me a custo.
Perdera o dono...

Já deu para o pequeno-almoço.
Bem saboroso...
Aqui no bar.

Bar do Reicheld, Berlim 3 de Maio de 2017
9h17m

Jlmg

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Macia e leve...

Uma película, macia e leve...

É a luz do sol.
Película, macia e leve,
Tudo cobre e alegra,
Nesta manhã de Junho.

Saltitam as cores das folhas vivas.
Tudo é puro como um lago manso.
Dá gosto olhar com olhos de ver.

Sob os chapéus de sol,
Há mesas limpas,
Onde apetece estar.
O café atrai
E as horas passam...

Bar dos motocas, 2 de Junho de 2017
8h57m
lindo dia de sol
Jlmg


quinta-feira, 1 de junho de 2017

Terror do deserto



Terror do deserto

Execrável aridez do deserto
Onde a sombra não tem lugar
E só vegeta o nada e a solidão.
Nem para cobras,
Nem para serpentes.

Nem o clamor das sarças amaina
Aquela vastidão de areia ao sol.

O céu sem nuvens.
Não há fadas.
Não há lendas.
Até o luar fugiu
E foi viver no mar.
Tanta avareza!

Que faria ao mar
Se lhe desse um pouco de água!?...

Berlim,1 de Junho de 2017
16h36m
Jlmg








quarta-feira, 31 de maio de 2017

Convénio dos gansos

Convénio dos gansos

Grande barafunda à tona do lago manso,
Quando cheguei pela manhã.
Muito grasnavam os doze gansos.
Irrequietos, descreviam arcos,
Semeavam rastos que se entrecruzavam.
Uma confusão.

Nem deram por mim ao pé.

Peguei numa pedra e joguei ao lago.

Fez-se o silêncio.
Ficaram atónitos.
Nunca tal lhes acontecera.

Se aproximaram ao centro.
Não sei o que disseram.

De repente, levantaram voo
Como aviões.

Formaram em V.
O chefe à frente.
Subindo alto,
Foram sobre o arvoredo,
Na direcção do regato.

Apenas ficou um,
Indiferente a tudo,
Pernas altas,
Um pescoço esguio,
Parecia uma garça.

Apontou o bico
E desfechou um golpe.
Caçada certeira.
Que grande peixe,
Atravessado.

Segui meu caminho.
Quando arribei ao riacho,
Mais a montante,
Ali vinham os gansos,
Bem perfilados,
Em direcção ao lago
Onde são reis...

Bar dos motocas, arredores de Berlim,
31 de Maio de 2017
9h02m

Jlmg