Alimento secreto
Saio à rua como o corvo desce a árvore.
Debico sorrisos e simpatia feito ave.
Sorvo da seiva doce que corre dentro
E vem à tona.
Tudo digiro em casa,
Num fechar de olhos.
Depois, só voo. Alto,
Num sonho lindo.
Para lá das nuvens
E oceano extenso.
Me recolho cedo.
Ao pôr do sol.
Me despeço dele
Até novo dia.
Assim eu vivo
Ao sabor da sorte.
Nunca me canso,
Sem fome ou sede.
Bar dos Motocas em dia de sol
Berlim, 11 de Maio de 2017
10h47m
Jlmg
quinta-feira, 11 de maio de 2017
terça-feira, 9 de maio de 2017
Meu banco de jardim
Meu banco de jardim
Espera por mim cada manhã.
Ali sento, por uns momentos,
No decurso da caminhada.
Me enriqueço com o que assisto.
O começar do dia.
Sempre diferente.
Naquela hora de se trazer o cão à
rua.
Sobrou para mim.
Ia eu pelo passeio, em passadas
fortes,
Batendo as canadianas,
Uma em cada punho.
Ao fundo, um alemão latagão,
Largando fumo.
Um canzarrão ao lado.
Se desprende e vem a correr direito a
mim.
Meus poucos cabelos se eriçaram.
- Estou feito!...
Ai que vou ter de usar minhas
canadianas!
Convencido de que de nada serviriam.
Olhei pró dono. Estava aflito.
Bem gritava:
Herkommen! Kome da!
Ainda mais galgava.
- Santo António! Exclamei cá dentro.
E não é que ele especou…a uns cinco
metros!
Porquê?
O dono chegou. Agarrou pela coleira o
cão.
E, pasme-se…nem um gesto esboçou a
pedir desculpa!
O que não estranhei…
Berlim, 9 de Maio de 2017
15h35m
Jlmg
segunda-feira, 8 de maio de 2017
Modulações
Modulações
Suaves ou agrestes são as ondas do
mar.
Assim a brisa e a tempestade.
Brandas orvalhadas de São João
Que tudo cobrem de ténue espuma
branca.
E o esgaçar tremendo das chuvas copiosas,
Em furiosas enxurradas.
A branda e doce aragem matinal
Que balança a folhagem do arvoredo e
das searas.
E o rompante turbilhão das ventanias
Que, num repente, tudo arrasam
desenfreadas.
Tão suaves são o pôr e o nascer do
sol naqueles dias de luz e cor,
Como de infernais as dolorosas
travessias dos desertos.
Ouvindo “ Ode à alegria” de Beethoven
Berlim, 8 de Maio de 2017
9h28m
Jlmg
domingo, 7 de maio de 2017
Aldeia de pássaros
No meio de montes,
Secos, cheios de ondas e vales,
Implantou-se uma aldeia,
Toda de pedras.
Granito pesado.
Cinzento e lavado das chuvas.
Só as telhas são barro.
Toscas lajes graníticas,
Estendidas, fazem caminhos.
Coitados dos carros de bois.
Taipais carregados de húmus
E estrume,
Saltitam nas pedras,
Estremecem e largam rastos
Que fumegam no chão.
Se alegram os pássaros.
Esvoaçam.
Chegam em bando.
Poisam. Sacodem as asas
E aguçam os bicos.
Seus olhitos reluzem.
Tanta fartura.
Toda de graça.
Enquanto comem ali,
Sossegam nos campos as sementeiras de trigo.
Fornalha de pão.
É a lei do equilíbrio que reina
Naquela aldeia de pássaros,
Toda de pedra…
Ouvindo “Glória” de Haendel e Vivaldi
Berlim, 7 de Maio de 2017
9h06m
Jlmg
sexta-feira, 5 de maio de 2017
Plantei uma árvore
Plantei uma árvore
Plantei uma árvore,
Carregada de folhas,
No meio dum livro.
Abri-o ao sol.
Espalhou os seus ramos,
Feita uma estante.
Cada folha um poema.
Rendilhada de versos.
Tecidos com letras.
Poisaram pardais.
Fizeram seus ninhos.
Fez-se uma aldeia,
Regada de sombra,
Abrigada do vento.
Sulcada de vales
E rios correntes.
Vêm de longe,
Se sentam à volta.
Põem-se a ler-lhe os poemas,
Nas tardes de Agosto.
Só derrama alegria,
Verdura de esperança.
Oxalá nunca seque
Morrendo sozinha…
Berlim, 5 de Maio de 2017
9h24m
Jlmg
quinta-feira, 4 de maio de 2017
Agora sim
Assim, está bem
Pronto. Depois de tanto,
Assim, está bem.
Que livro grosso de folhas escritas.
Capítulos vastos de lendas e doces
realidades.
Um mar de seduções e lembranças
doiradas.
Para trás, ficou a vastidão do mar.
Belos horizontes ao nascer e pôr do
sol.
Lindas noites albas de lua cheia.
Luzentes e magníficos céus
estrelados.
Vastas planícies de searas loiras.
Labaredas albas de serras níveas.
Loucas correrias por escarpas e
rochas verdes.
Finalmente, o sossego doce de chegar
ao mar.
Se fosse agora o fim,
Bendiria a vida…
Berlim, 5 de Maio de 2017
7h11m
Jlmg
quarta-feira, 3 de maio de 2017
Ascores da aragem
As cores da aragem
Bate na cara e foge.
Ninguém lhe vê a sua cor.
Fica o rasto no desalinho do nosso
cabelo.
Assobia e canta, mas não tem cordas.
Desafia a chuva e afugenta o sol.
Préga partidas.
Chapéus pelo ar.
Se mete nas frestas como os intrusos.
Silva nos fios e cataventos.
Espalha as brasas.
Atiça o mar.
Despedaça as telhas.
Diabo à solta.
Se cola às velas.
Põe o barco a andar.
Muda de nome,
Mas é sempre o mesmo.
Vento do norte,
Vento suão.
Puxa o inverno.
Traz o bom tempo.
Faz rabanadas.
Arrasa os quintais.
Só Santa bárbara a põe no lugar…
Ouvindo música de filmes
Berlim, 3 de Maio de 2017
9h13m
Jlmg
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