quarta-feira, 3 de maio de 2017

Ascores da aragem



As cores da aragem

Bate na cara e foge.
Ninguém lhe vê a sua cor.
Fica o rasto no desalinho do nosso cabelo.
Assobia e canta, mas não tem cordas.

Desafia a chuva e afugenta o sol.
Préga partidas.
Chapéus pelo ar.

Se mete nas frestas como os intrusos.
Silva nos fios e cataventos.
Espalha as brasas.
Atiça o mar.

Despedaça as telhas.
Diabo à solta.
Se cola às velas.
Põe o barco a andar.

Muda de nome,
Mas é sempre o mesmo.
Vento do norte,
Vento suão.
Puxa o inverno.
Traz o bom tempo.

Faz rabanadas.
Arrasa os quintais.
Só Santa bárbara a põe no lugar…

Ouvindo música de filmes

Berlim, 3 de Maio de 2017
9h13m
Jlmg

terça-feira, 2 de maio de 2017

No cotovelo da praça



No cotovelo da praça

Nada passa no cotovelo da praça.
Tudo deserto.
Foram embora as barracas e os estendais.
Ficaram os paus estendidos p’lo chão.
Há papéis e garrafas plásticas vazias
Pelos cantos.

Tarda em passar o carro do lixo.
Aquelas bancadas fartas de tudo.
Fruta. Bolaria. Rolos de fazenda.
Cabides de roupa.
Pronta a vestir.
Em pano-cru ou cotim.

As albardas e arreios das alimárias.
Benfazejas.
Fazem tudo por palha seca e água na celha.
Restam ainda seus excrementos vegetais.

Voam moscas nas bancadas secas do peixe à mostra.

Há restos de cordas e amarras.
Alguns pregos presos ao chão.

E o vento louco na sua dança,
Vai varrendo as folhas
Como o diabo faz às almas
Quando entram no inferno…
Está mesmo na hora de me ir embora.

Ouvindo música de filmes

Berlim, 3 de Maio de 2017
8h49m
Jlmg



segunda-feira, 1 de maio de 2017

Suave tapete verde

Suave tapete verde


Caminhei meia hora sobre um tapete verde.
Por debaixo dum dossel majestoso,
de arvoredo enorme....
Ouvi trinados de melros e rolas em amistoso desafio.
Senti o doce marulhar do vento fresco no meu rosto.
Vi as mães levando seus filhinhos para as creches.
Enquanto possantes camiões se aprestam a abastecer as prateleiras secas dos supermercados.
O vaivém pressuroso dos autocarros levando a mão de obra para seus ofícios.
Bendigo o benefício pronto destes meus passos matinais,
Porque me deixam encarar com mais ânimo as agruras do dia que possam vir.
Além do mote fresco para estas letras que aqui deixo...


Berlim, 2 de Maio de 2017
7h14m
Jlmg

Evidências



Evidências

Só depois de desvendadas
As coisas simples parecem evidências.
O género humano foi dotado
De uma gradação imensa de capacidades.

Cada um é bom nas suas.
Mas o todo só aparece
Depois da junção das partes.

Ninguém constrói um muro com um só bloco.
É preciso somá-los,
Segundo uma ideia perfeita.
Podem ser diferentes na sua forma
E medida.
O que conta é a união geral.

A uns, os cambiantes só.
A outros, a estrutura mor.
A obra só surge
Quando a tela enche.

Que adianta ao dó
Ser muito afinado,
Sem a sequência de outras notas?
O belo jamais se vende ou compra a prestações…

Berlim, 1 de Maio de 2017
13h49m
Jlmg




Não se espera pelo outro mês



Não se espera pelo outro mês

O que escrevi agora
Não espero por outro mês
Para o dar a conhecer.

Já não é meu,
Se for bom e belo,
O que saiu de mim.
Tenho de partilhar.

Para quê aferrolhar,
Quadro ou poema,
Se pode fazer bem a alguém,
Na hora?...

O talento não tem valor
Só em proveito próprio.
Quem mais tem
Mais tem de distribuir.
Porque o mérito
Não está em mim.
Vem d’Alguém
Que é Luz e cor…

Berlim, 1 de Maio de 2017
13h21m
Jlmg


Arquitectura dos espaços

A arquitectura dos espaços

A tracinhos milimétricos
Se esboçam os croquis
De palácios e catedrais.
Nem sempre foi assim.
Na China antiga,
Grande muralha
E nas pirâmides dos Faraós.
Já não, os poderosos diques da Holanda
E do delta do Nilo,
Os canais.
Só o Vesúvio, espalhando lava,
Desfez em cacos a arquitectura de Pompeia
E se quedou calado
Até aos dias do presente.
E o decano Eifel
Que teve a feliz ideia
De erguer bem alto
Aquela torre esbelta,
Chamariz p’ró mundo,
Dos encantos de Paris.
E Dubai, com tantos dólares,
Ajardinou o deserto
E se construiu no mar!...
Ouvindo acordes de guitarra
Berlim, 1 de Maio de 2017
7h45m
Jlmg

...não fica niguém.

Hoje, em casa, não fica ninguém
Só os parasitas
E os que não podem andar.
Hoje, em casa, não fica ninguém.
É dia de festa.
Para quem trabalha
P’ra ganhar pão para comer.
Todos na rua,
Vamos p'rá serra.
Vamos p'ró mar.
Toca a dançar.
Dando as mãos,
Unindo as forças,
Escritório e fábrica,
Se soma a riqueza.
É tudo irmão.
Roma e Pavia se fizeram à mão…
Ouvindo Mozart
Berlim, 1 de Maio de 2017
9h57m
Jlmg