sábado, 29 de abril de 2017

Tristes os olhos...



Tristes os olhos daquele velho só

Viveu a vida longe.
Voltou à terra onde nasceu.
Sabe que pouco mais
Poderá saboreá-la.
Então, sua alma chora
E seus olhos secos, também.

Poucos dos seus,
Com quem brincou,
Já por lá moram.
Tolda-lhe o céu
A saudade em chama.
Nem sequer um cão
Ele tem ao lado.

Só a tristeza lhe vive dentro
Como uma dor ferrada.

Afinal, de que serviu ir procurar tão longe
O bem que só sua terra guarda?…

Berlim, 29 de Abril de 2017
16h43m
Jlmg


sexta-feira, 28 de abril de 2017

Um banho de frescura



Um banho de frescura

Tomei um banho de frescura e verde
Deambulando através do bosque da minha casa.
Saí dormente. Cheguei ardente de viver esta vida
Que me foge tanto.

Ouvi o canto da passarada voando à solta.
Vi os corvos negros, de bico arguto,
Cruzando rasantes os carros da estrada.

Vi flores às cores,
Sorrindo em coro,
Pareciam anjos devotos,
De mãos erguidas.

Semeei passadas,
Trilhei caminhos,
Por terras negras.
Pisei a relva,
Um mar de verde.
Banhei meus olhos
De orvalhada.

Amanhã lá volto
E não pago nada…

Berlim, 29 de Abril de 2017
7h26m
jlmg


quinta-feira, 27 de abril de 2017

A voz humana



A voz humana

Aquele instrumento de cordas
Que a alma toca,
O maestro é o coração.
Canta. Fala.
Chora e ora.
Diz sim e não.

Aquela fonte incessante
Que pinta cores.
Lava tristezas
E sara dores.

É sereia.
Serpente sedutora.
Convincente.
Faz dos fracos fortes.
Derrama luz nas sombras.
Mestre-escola.
Pregadora.
Conselheira.

Verdadeira e trapaceira.
Servindo o bem e o mal.
Conforme a hora ou o dono.

Catavento.
Faz rir e faz chorar,
Conforme o vento.

Reluz ao sol,
Mas é no silêncio
Que ela brilha…
Ouvindo “Habanera” da Carmen

Berlim, 28 de Abril de 20q17
8h39m
Jlmg



Cântico dos corvos

Cântico dos corvos


Incansáveis nas suas lides,
Sempre as mesmas,
A bem das crias,...
De manhã à noite,
Vão e vêm até ao chão.

Fazem aldeias.
Escondem seu ninho
Onde bem o quiserem.
Vivem para eles,
Com suas regras.
Impõem respeito
E são bons vizinhos.
Poisam na estrada,
À frente dos carros.
Olhar sempre atento,
Aparente indiferença,
Ninguém os apanha.
Sempre nos topos
Dos pontos mais altos.
Vestidos de negro.
Tudo devassam.
Visitam varandas.
Peitoris das janelas.
Se fazem amigos
De quem os respeita.
Conheço casais.
Me conhecem também.
Estranham-me a ausência.
Me visitam à chegada
Como reis dos pardais…
Berlim, 27 de Abril de 2017
16h12m
Jlmg

Alternativas...



Alternativas…

Uma escada longa,
Sobre uma encosta alta e alcantilada
É uma suave alternativa
Que encurta a distância e dissolve o esforço
Em passadas breves.

Um passadiço firme,
Cravado na encosta sinuosa e íngreme,
Ao longo dum vale profundo
Onde corre um rio
É a chave de oiro
Que abre um tesouro
Que morreria escondido.

Aquela ponte imensa
Que vai altiva
Duma margem à outra,
Ribeira ou rio,
Num voo de sonho
É o remédio santo
Ligando as gentes,
Que desfaz fronteiras.

Aquele cortejo de oferendas
Que galvanizou as gentes
A favor dum lar
Que recolheu de graça
Quem já só pode orar,
Lhe encheu a mesa
E tirou do frio,
Para um ano inteiro
É o fecundo abraço
Que restitui a esperança
A quem diria adeus à vida…

Berlim, 27 de Abril de 2017
9h8m
Jlmg


quarta-feira, 26 de abril de 2017

Prà minha aldeia...

Vou embora p'rá minha aldeia...
 
 
Cansado e farto das multidões.
Vou p'rá minha aldeia.
Lá vejo as serras ao longe
E ao perto me cheira a mar.
Vejo o nascer e o pôr- do- sol.
Oiço o cantar da cotovia.
As horas não têm mais fim.
Lá, o pouco sabe a muito.
E o muito é tanto,
Não custa nada.
Quem sabe, lá fique para sempre.
Foi lá que eu nasci...
Berlim, 26 de Abril de 2017
9h54m
Jlmg

terça-feira, 25 de abril de 2017

Bosque verde...



Bosque verde…

Passei pelo bosque nas traseiras da minha casa.
Deixei-o nu. Desflorido.
Os caminhos, cobertos de neve seca.
No fim do inverno.

Hoje, brilhava ao sol.
Muitas flores.
Um verde, verde.
Muitos pássaros. Melros e pombas.
Não me ligaram nenhum.
Debicavam o chão.

Enchi-me de ar.
Às baforadas.
Puxei pelas pernas,
Estavam emperradas.
Passei pelo “turco”.
Gostei de vê-lo.
Comprei-lhe o pão.

Vai ser a rotina diária
Por mais três meses.
Depois, Verão.

Berlim, 26 de Abril de 2017
7h43m
Jlmg